Viver

Tentei passar pela porta, não deu. Então vim ver pela fresta o mundo. A fresta fechou, a sede bateu. Voltei para casa, o tijolo ruiu. Para a terra comer, o corpo caiu.

Autor: Felix

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Calma, ria

No começo eu ria
Da face redonda
Encarando-me no espelho
Misteriosa, completa, tão séria

O rio não é feliz mas ele rio

No final do dia
Vejo a onda
Esparramando-se na areia
Preguiçosa, serena, materna

O rio não é feliz mas ele rio

Autor: Felix

Ele

Em seu caminho ele caminha, calminho
Mas por seu caminho não teria ido,
Se soubesse de tudo que havia de ser sofrido
Toda reta é curva, e ele que é torto foi invertido
Ele teve seu coração partido
Sobraram os sonhos inertes
Ele retruca o tempo e guarda as horas
Cancela os minutos, vive os segundos
Ele acaba preso dentro de uma gaveta

Autor: Felix

Atemporal

Na minha personificação mais recente eu era lama, eu era gente. Eu era aquela coisa que eu já nem achava mais que fosse… Eu era o caminho traçado pela força do vento, era os rastros deixados dentro de mim por uma energia que existe e tem uma luz que não se apaga nem se rende ao ócio. Sou puro negócio de mim mesmo. Vivo me doando aos quatro ventos e me vendendo aos quatro prantos. Sou o passado, o presente e o futuro, coexistindo numa mesma linha de tempo. Sou atemporal.

Autor: Felix

Escárnio

​A arte está no corpo nu. Ela está nos olhos que amadurecem para libertar a próxima lágrima. Está no próximo choro de saudosismo. Está no estado de contemplamento. A arte reina na aura da poesia do meu coração escarlate. A arte pura é a puta de minha esquina, minha arte é prostituta. Ela dança, quica no chão e cheia de graça rebola ao som da tua fala. A arte está no meu desejo de seguir vivo. Sinto sua presença no meu medo de morrer sem sentir sua verdade correndo em minha veia. Ouça meu grito de fim de tarde! Meu pau vibra contente em teu nome! Mastigue-me, arte! E cuspa o que restar de mim!

Autor: Felix

Só Vazio e Pó

Em uma manhã sem sono, Solidão se sentiu tão só que se solidificou; a Madrugada, no nó de sua insanidade, já não a deixava dormir. Então Pesadelo, vingativo amante, partiu a Madrugada ao meio. Morte, dor e apatia. O Pesadelo Tântrico, da morte de cada fim de dia, pegou Madrugada, partiu ao meio o nó insosso da insônia e transformou tudo em pó. Às três e treze d’uma madrugada sem sono tudo vira vazio e pó.

Autor: Felix